Maritacas aparecem todos os dias para comer na casa de idoso: “Eles são a minha família de asas”
Os moradores da região do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, estão familiarizados com a presença diária de periquitos e maritacas voando ao redor. Essas aves coloridas, embora um tanto barulhentas, costumam circular em grupos, acordando cedo e sem se preocupar em preservar o sono dos vizinhos nos locais onde constroem seus ninhos. No entanto, na Avenida Sapopemba, na Água Rasa, essas aves têm uma presença ainda mais marcante. Diariamente, elas visitam a casa do espanhol Florêncio Lopez Fernandes, de 84 anos, que é conhecido na região como Florêncio Maritaca.
Pelo menos duas vezes por dia, o artesão aposentado é flagrado na janela de casa dando comida a dezenas desses pássaros, que devoram as sementes de girassol oferecidas por ele com vontade e, claro, muita gritaria.
Florêncio Lopez Fernandes alimenta maritacas na janela de casa na Água Rasa, Zona Leste de SP, em vídeo de 2019 — Foto: Reprodução/Youtube/Canal Cotidiano SP
Florêncio iniciou sua amizade com as aves em 2015, quando dois periquitos passaram a pousar regularmente em sua janela em busca de restos de comida que ele deixava. Esses dois periquitos logo aumentaram para quatro. Dois anos depois, os quatro se multiplicaram para oito. No entanto, o espaço ficou apertado e as maritacas, que são maiores, descobriram a fonte de alimento. Com o tempo, o grupo de maritacas cresceu significativamente e, hoje em dia, mais de cem aves visitam diariamente Florêncio, de acordo com sua própria estimativa.
“Basta abrir os primeiros raios de sol, por volta das 6h da manhã, que elas já estão na minha janela. São o meu despertador. O dia que tem chuva forte, e elas não aparecem, eu fico até triste”, contou.
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Vinda para o Brasil
Florêncio, natural de Córdoba, Espanha, emigrou para as Américas aos 12 anos, no ano de 1952. Ele chegou ao Brasil acompanhado dos pais e de uma irmã, após uma jornada de 12 dias a bordo de um navio que atracou em Santos, no litoral paulista.
No Brasil, ele ganhou a vida como artesão, administrando uma fábrica especializada em gravar cristais e vidros. No entanto, com o avanço da idade e problemas de saúde, teve que encerrar suas atividades diárias. Vivendo solteiro e sem filhos, Florêncio leva uma vida praticamente solitária. Ele conta com o apoio de dois sobrinhos, que fazem ligações diárias para verificar como o tio está passando e acompanhar seu cotidiano.
Na ausência de filhos, Florêncio diz que fez das aves sua família. “É uma satisfação enorme alimentar esses pássaros. Eles são a minha família de asas. São inteligentes e carinhosas feito gente de verdade. Tem dia que eles ficam no fio esperando eu colocar a comida e dá para contar mais de cem deles empoleirados.”
“Muitas delas vivem no Parque Ceret ou vêm lá da Mooca. Se vai chover, chegam mais cedo. São mais precisas que os meteorologista da Globo“, brinca.
O imigrante espanhol Florêncio Lopez Fernandes, de 84 anos, com o pacote de semente de girassol que oferece aos pássaros todo dia na Água Rasa, Zona Leste de SP. — Foto: Rodrigo Rodrigues/g1
Sem nunca ter estudado veterinária ou biologia, Florêncio entende do ciclo de vida das maritacas como poucas pessoas. O conhecimento ele diz que vem da pura observação e proximidade com os animais.
“São pássaros que duram mais de 50 anos. Nessa época de fim de ano, outubro, novembro e dezembro, é época do acasalamento. Lá para janeiro, fevereiro, nascem os filhotinhos. Geralmente cada ave dá uns dois filhotes. E eles começam a vir comer devagarinho. A primeira vez, o pai ou a mãe vêm e comem, enquanto eles ficam no fio esperando. Os pais comem e depois levam para eles o girassol já aberto, porque eles ainda não têm força no bico para abrir [a semente]”, detalha.
Florêncio Lopez Fernandes alimenta maritacas na janela de casa na Água Rasa, Zona Leste de SP, em vídeo de 2019 — Foto: Reprodução/Youtube/Canal Cotidiano SP
Pra conquistar as novas gerações de maritacas, Florêncio tem uma estratégia: “Eu geralmente abro as sementes com um alicate e deixo separado na minha mão. Os grandes vêm e comem rápido, mas os mais novos sabem que o que é deles já está reservado. Eles comem devagarinho, mas chegam com a certeza que não vão sair de barriga vazia.”