Nos últimos dias, a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) voltou aos holofotes ao anunciar a suspensão de sua “assistência climática” aos Estados Unidos, como reação às tarifas impostas pelo governo Trump. Paralelamente, críticas à ausência de convites para atuar em festivais brasileiros, como o The Town, reacenderam a curiosidade e a polêmica sobre o papel da entidade na contenção de eventos meteorológicos extremos.
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Foto: Reprodução/AFP
O que é a Fundação Cacique Cobra Coral?
A FCCC se apresenta como uma entidade espiritual com missão de “minimizar catástrofes decorrentes dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Criada pelo médium Ângelo Scritori, falecido em 2002, a fundação está hoje sob a liderança de sua filha, Adelaide Scritori. De acordo com a versão oficial, o espírito do Cacique Cobra Coral, entidade que teria sido, em vidas passadas, Galileu Galilei e Abraham Lincoln, passou a se manifestar através de Adelaide desde o seu nascimento.
Qual é a relação com o clima e os festivais?
Segundo a FCCC, o espírito do Cacique tem o poder de influenciar fenômenos naturais, como chuvas e tempestades. É por isso que, ao longo dos anos, a entidade firmou contratos com prefeituras e empresas privadas para atuar em grandes eventos ao ar livre. Um dos vínculos mais conhecidos foi com o Rock in Rio, especialmente a partir de 2001.
Conforme o biógrafo Luiz Felipe Carneiro, “o festival de 2001 não enfrentou chuvas”, e isso foi atribuído à atuação da fundação. Desde então, a relação com Roberto Medina, criador do evento, oscilou. Em 2011, representantes da FCCC teriam sido barrados por falta de credenciamento. Choveu naquele dia, e a fundação associou o ocorrido à sua exclusão.
E o The Town?
No primeiro dia do The Town 2023, um temporal alagou áreas do Autódromo de Interlagos, em São Paulo. A fundação se manifestou afirmando não ter sido convocada: “Não fomos convidados para o evento”, escreveu a FCCC em publicação no Instagram, lamentando o rompimento da parceria com Medina. A fundação também afirmou que havia alertado previamente sobre um “verão adiantado”.
Paulo Coelho e o crescimento da FCCC
O prestígio da instituição se ampliou nos anos 2000, quando o escritor Paulo Coelho atuou como vice-presidente da fundação. O envolvimento de nomes públicos ajudou a divulgar as supostas intervenções espirituais da entidade, que diz já ter atuado em países como Estados Unidos, Itália, Filipinas, Cuba e México.
Contratos com governos e transparência
A FCCC não divulga valores cobrados e afirma manter “sigilo absoluto” sobre contratos com empresas. No entanto, já houve relações com o poder público. Em 2021, o Ministério de Minas e Energia (MME) recebeu Osmar Santos, representante da fundação, em uma reunião sobre a crise hídrica. O MME esclareceu, posteriormente, que o encontro não envolveu o ministro e que foi uma resposta a uma solicitação com alertas sobre risco de apagão.
A fundação nega ter recebido verbas públicas e exige apenas que os órgãos conveniados enviem, anualmente, relatórios sobre obras voltadas à mitigação de desastres naturais. Em janeiro, a FCCC suspendeu convênios com a Prefeitura e o Estado do Rio de Janeiro por não terem enviado esses documentos.
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Quanto custa acionar o Cacique?
Não há valor fixo divulgado. Segundo relatos, o Rock in Rio teria pago cerca de US$ 10 mil pelos serviços em 2001. O pagamento teria sido feito em duas etapas: um adiantamento de US$ 2 mil e o restante após o festival, caso não chovesse, o que, de fato, não ocorreu. Já o livro Vendedor de Sonhos, sobre Roberto Medina, menciona o valor total de R$ 10 mil.
E a suspensão dos EUA?
A recente suspensão de 50% dos atendimentos a empresas norte-americanas marca um momento inusitado da fundação. A decisão foi divulgada pela própria Adelaide Scritori, após o presidente Donald Trump anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A FCCC justificou a medida como uma ação baseada no “princípio da reciprocidade”: “Receba, senhor presidente Donald Trump, nossa manifestação de paz espiritual”, afirmou Adelaide nas redes sociais da fundação.
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Repercussão no Planalto
A resposta do governo brasileiro à nova tarifa foi imediata. O presidente Lula reforçou que o país não aceitará pressões externas e sinalizou que usará a Lei da Reciprocidade Econômica como base para medidas reativas. O petista também classificou como inaceitável o conteúdo da carta enviada por Trump à embaixada dos EUA, que acusava o Brasil de minar eleições livres e censurar americanos.
Segundo o governo, o documento foi formalmente devolvido e, internamente, já há discussões sobre os impactos que as novas tarifas podem gerar, principalmente em setores como o de siderurgia, que já enfrentam taxações pesadas sobre exportações como aço e alumínio.
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